Quanto tempo seu negócio vai durar?

Quanto tempo seu negócio vai durar?

15/07/2019

 

Por Rosiane Moro

 

O caminho da longevidade inclui planejamento, liderança, cultura organizacional, foco no cliente e investimento em tecnologia

Quando o assunto é longevidade empresarial, o primeiro item que vem à cabeça é o planejamento a longo prazo. Afinal, projetar cada passo de uma organização é o ponto de partida para torná-la viável. A grande dificuldade, porém, está em transformar as propostas em realidade, principalmente porque quando falamos em perpetuar o negócio por 40 anos ou mais significa na prática projetar métodos para manter-se vivo diante dos altos e baixos do mercado, estar atualizado com as inovações tecnológicas, acompanhar de perto as mudanças no estilo de vida dos consumidores, idealizar a própria evolução como líder e elaborar o processo de transição para os sucessores. É muita coisa para pensar, prever e realizar, o que exige uma visão de 360 graus das ações que permeiam a gestão empresarial.

Ninguém pode dizer ao certo quantos anos uma organização vai durar, mas a trajetória longeva de empresas popularmente conhecidas sinaliza alguns caminhos e todos eles passam necessariamente pela gestão eficiente. A Coca-Cola, por exemplo, vende praticamente o mesmo produto há mais de 130 anos e mesmo assim não perdeu a relevância no mercado, sendo considerada ainda hoje uma marca jovem. Além de inovar em embalagens, distribuição e diversidade de portfólio, a empresa soube trabalhar sua imagem de marca, mantendo-se como o refrigerante mais lembrado e preferido pelos consumidores ao longo dos tempos. O mesmo pode-se dizer das centenárias Hering e Universidade Mackenzie. Sem mudar a área de atuação, ambas adaptaram-se às novidades de seus segmentos, continuando a oferecer produtos e serviços relevantes para a sociedade, comprovando que enquanto os clientes enxergarem valor em um negócio a empresa sobreviverá.

Atitudes proativas em relação ao futuro são a garantia de perenidade. Não basta ter clientes satisfeitos, equipamentos de ponta ou equipe treinada hoje. É preciso ter isso sempre. Para isso acontecer, a empresa precisa ter uma política voltada à inovação para dar a sustentação à continuidade do negócio. A sua prática exige uma atuação em três pontos fundamentais. O primeiro deles é um velho conhecido dos administradores: o planejamento estratégico do negócio. Segundo Marcus Marques, consultor e especialista em gestão para pequenas e médias empresas, o empresário precisa estudar constantemente as atividades realizadas, os seus fluxos de trabalho e os recursos necessários para a sua execução. Com esses dados em mãos, inicia-se um processo de reflexão em busca de respostas para quatro questões básicas: Onde estamos agora? Onde queremos estar? Como chegaremos lá? Como podemos medir o nosso progresso? Esse exercício deve ser praticado em fluxo contínuo. Tão logo um objetivo seja atingido, o processo começa novamente. “O que evolui dificilmente retrocede, portanto é necessário estimular uma transformação mental desde a alta liderança até os colaboradores, a fim de alcançar um mecanismo de soluções inovadoras. Não existe empresa estagnada, ou ela está crescendo ou está morrendo”, diz o consultor.

O segundo item para promoção da longevidade é ter uma forte cultura organizacional para que, à medida que o negócio cresça, o trabalho continue sólido e estruturado, independentemente de quem estiver à frente do negócio. “Para que a missão, a visão e os valores sejam implantados na equipe, é preciso que haja o compartilhamento de responsabilidades, informações e tarefas operacionais. Dessa maneira, o empreendedor consegue manter o foco nas questões estratégicas que dependem dele para darem certo”, observa Marques.

O trabalho de desenvolvimento da cultura organizacional começa já no processo seletivo ao escolher os profissionais que combinem com os propósitos da empresa. “Estabeleça critérios específicos para a atividade de recrutamento, em seguida invista na comunicação da equipe, afinal o alinhamento interno de informações é primordial para estimular uma conduta comum a todos, sustentando os projetos da organização e garantido a longevidade” elenca o consultor. Outra estratégia efetiva é a construção de um “manual do colaborador”, uma espécie de guia de conduta que serve de referência tanto para os novos funcionários quanto para os antigos. “Quando os profissionais entendem a finalidade das normas, tendem a ficar mais dispostos a colocá-las em prática”, alerta Marques.

 

 

Evite a morte precoce

Nos três últimos anos, várias empresas fecharam as portas por turbulências econômicas ou perda de competitividade. Um dos principais erros dessas empresas é o uso da lucratividade como medida de sucesso. É claro que ter dinheiro em caixa é essencial para o andamento do negócio, mas a fonte pode secar rapidamente caso os clientes percam o interesse pelo produto ou serviço oferecido. A falta de relevância é o primeiro item apontado por Marcus Marques que leva uma empresa à morte precoce. “Ignorar os movimentos do mercado e as necessidades do cliente significa afastar-se das últimas tendências, o que pode gerar impactos negativos à companhia. Logo, é fundamental estar de olho nessas transformações e nas atividades dos concorrentes a fim de manter-se sempre um passo à frente.”

Na sequência, o consultor aponta a má gestão financeira, que leva o negócio a uma descapitalização irreversível, principalmente se o empresário não priorizar a separação das despesas pessoais das despesas do empreendimento. “Outro item capaz de provocar a falência é a ausência de profissionais capacitados, o principal ativo para o crescimento contínuo da empresa”, destaca.

Grande parte do sucesso de um empreendimento está relacionada ao desempenho de seu líder. “Ele é o responsável por perpetuar a cultura da empresa e precisa focar sua atuação em pessoas, processos e resultados, além de ser um exemplo de conduta para os funcionários; afinal, líderes excelentes geram colaboradores excelentes, que geram clientes satisfeitos, que geram resultados”, explica Alexandre Slivnik, consultor, sócio-diretor do Instituto de Desenvolvimento Profissional e autor do livro “O poder da atitude”.

Assumir esse papel não é fácil e requer habilidades que precisam ser desenvolvidas ao longo da vida. A primeira delas é estar disposto a sair da zona de conforto e desafiar-se a ser um profissional melhor a cada dia. O excesso de trabalho e as intercorrências não podem servir de desculpa para os gestores abandonarem o posto de liderança. Ao contrário, são os momentos de estresse que determinam se o líder realmente dá conta do recado, começando pela resolução de conflitos dentro da empresa. Terceirizar essa tarefa ao departamento de recursos humanos ou ignorar o que está ocorrendo para ver se as coisas se resolvem sozinhas é assinar um atestado de incompetência.

Para Slivnik, as características fundamentais de um bom líder são saber ouvir, dar feedbacks positivos e reconhecer um trabalho bem feito. O lado bom é que ninguém nasce um excelente líder, é algo que vai se desenvolvendo ao longo da vida baseado em aprendizados constantes, como ações de desenvolvimento pessoal, exemplos que vivencia no dia a dia, valores familiares e valores da sociedade. “Um bom caminho é sempre conversar com pessoas que sejam melhores do que você nessa função, buscar inspiração em ler livros e filmes. Quanto mais você se aproxima de quem deseja ser mais rapidamente chegará aonde deseja.”

Os colaboradores também são peças essenciais dessa engrenagem e precisam estar engajados com os propósitos da empresa e envolvidos em grandes projetos. É fundamental fazer a equipe sentir-se parte de algo muito maior do que o trabalho do dia a dia e saber que existe um objetivo final por trás de cada tarefa executada e uma meta a ser alcançada. Criar um ambiente saudável, onde cada integrante possa expor suas ideias, sugerir melhorias e criticar o que vê de errado é tarefa da liderança. Afinal, a longevidade da empresa perpassa necessariamente pela satisfação dos funcionários.

O líder também tem a missão de preparar o terreno para o seu sucessor, seja ele um membro da família, um profissional da própria empresa ou até algum comprador de fora do círculo de negócios. “O que eu vejo em muitas empresas é que elas nascem de um sonho do fundador e ele concentra todas as ações e decisões para si mesmo, perdendo a oportunidade de perpetuar o seu legado”, conta Slivnik. A saída é compartilhar os ideais com outros líderes e liderados para que os sucessores possam perpetuar a sua história quando deixar a direção. “O problema é que, para isso acontecer, o empresário precisa comandar os negócios de modo a tornar-se praticamente desnecessário, desenhando detalhadamente cada processo para que outros profissionais possam desempenhar as tarefas com a mesma qualidade”, ensina.

 

Cliente e tecnologia

Não existe crescimento sustentável e duradouro sem total atenção aos clientes. Sem eles os propósitos da organização são apenas palavras ao vento. Ao traçar os planos de futuro, é preciso incluir como será a experiência do cliente com a marca nos mais diversos pontos de contato. “O empreendedor precisa entender que itens considerados antigamente como diferencial, como qualidade, rapidez na entrega e bom atendimento, viraram commodity. Todo mundo tem”, aponta a diretora e estrategista da Stratlab, Fernanda Nascimento. Para ir além do lugar comum, é preciso colocar o consumidor no centro de todas as atividades, entendendo quais são suas reais necessidades e criar formas de surpreendê-los.

Ainda não inventaram melhor maneira de compreender os desejos dos clientes a não ser perguntando a eles mesmos. “Sempre aconselho meus clientes a escolherem dez consumidores fiéis para pesquisar quais os motivos que os levam a comprar na empresa, como é a jornada de compra deles em lojas de outros segmentos e como se comportam no meio eletrônico, anotando as redes sociais preferidas e os buscadores utilizados”, sugere Fernanda.

Esse diagnóstico possibilita a construção de pontes de relacionamento, que devem incluir necessariamente os meios digitais. Apesar de o contato humano no balcão de vendas e ao telefone ainda serem essenciais, abster-se da tecnologia para falar com seu público de interesse é praticamente ser invisível para o mercado. “Somos muito bons em tecnologia como usuários, mas ainda não conseguimos como empreendedores trazer o mundo digital para o nosso negócio na mesma velocidade que a gente adotou na vida pessoal”, analisa a diretora. Para ela, o pior do cliente não encontrar uma empresa na rede é ele achar o seu concorrente, lembrando que na atualidade as pessoas dão mais valor à experiência de compra do que para o produto e preço. E não preciso pensar em estratégias mirabolantes para encantar o cliente. “A Amazon, por exemplo, quando fala que vai te entregar um produto em três dias e ele chega na sua casa no dia seguinte, ela já te surpreendeu. No momento da compra ela sabe que dentro de condições normais pode ter um prazo melhor, então trabalha com uma margem segura e se esforça para aumentar o grau de satisfação do cliente”, demonstra Fernanda.

Usar corretamente as inúmeras ferramentas do mundo virtual é o que fará sua marca ganhar projeção e crescer. Não basta ter um site e estar nas redes sociais sem oferecer conteúdo atualizado e de interesse do cliente. “O primeiro passo é saber o que seu cliente busca. Se é o preço dos produtos, a diferença entre uma marca e outra, dicas de faça você mesmo. Essas informações são importantes para produzir material de interesse do seu público e ganhar não só projeção como também engajamento”, reforça Fernanda. Além do conteúdo, é importante medir o retorno, checando se os clientes leram o seu post, interagiram com ele e compartilharam. A internet é uma fonte sem fim de métricas de checagem de resultados e requer monitoramento constante para saber se a estratégia está dando certo ou não, facilitando o acerto da rota.

Outra vantagem de aderir à tecnologia para perpetuar o negócio é que a rede proporciona uma relação de paridade entre os concorrentes. “É um dos poucos lugares que permite que o pequeno brigue com o grande porque virtualmente as marcas podem ter tamanhos similares, embora no mundo real sejam bem diferentes”, observa a diretora. Existem duas formas de ganhar visibilidade. A primeira é organicamente, usando a própria rede de contatos e a da empresa, a dos funcionários, dos clientes e até dos fornecedores. “Existe uma grande chance de um cliente apaixonado por carro estar conectado com grupos de pessoas com o mesmo interesse, então se ele compartilhar uma publicação falando o quanto você cuida bem do carro dele com certeza vai ganhar mais clientes sem fazer grandes investimentos”, completa Fernanda. Outra maneira é usar os anúncios pagos, que oferecem grandes opções de customização, como localização geográfica e perfil do público. Vale lembrar que qualquer tipo de impulsionamento de conteúdo gera dados com resultados para medir o grau de eficácia da sua ação. Só não esqueça de que a rede requer práticas de boa conduta. Responda aos comentários e dúvidas dos clientes e evite disparar inúmeros conteúdos no mesmo dia. Também é preciso pegar o consentimento deles para enviar as mensagens, principalmente por WhatsApp, lembrando que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) entrará em vigor no Brasil a partir de 2020.

 

Com o pé no chão

Há exatos 48 anos, Jairo Martins deixou o trabalho em uma oficina mecânica para aventurar-se no empreendedorismo. Sem nunca ter administrado um negócio próprio, apostou no esforço pessoal para abrir a Auto Peças Martins, em Jacupiranga (SP). A dedicação integral à loja deu certo e hoje a empresa com 11 funcionários tem uma gama de clientes cativos. “A chave do nosso sucesso é a honestidade e o vínculo que criamos com os nossos clientes. Esse relacionamento mais estreito é essencial em cidades pequenas, como a nossa”, diz o comprador Alex Sandro Pinto Mendes, há 19 anos na empresa.

Outro ponto essencial foi o crescimento controlado. “Sempre investimos com o pé no chão. Nosso crescimento foi lento, mas muito bem planejado para não comprometer a saúde financeira da empresa”, acrescenta Alex. O proprietário, no entanto, não gosta de fazer planejamentos a longo prazo. A temperatura do mercado é medida dia a dia. O próximo passo inclui investimentos na venda online. Apesar da filha Jeany C. Martins Volpini trabalhar na empresa, Martins não pensa em abandonar a liderança do negócio tão cedo.

 

 

Crescimento controlado

A Padrão Diesel, de Goiânia (GO), nasceu bem pequena. Além dos sócios Charley Silva e Teresa Rodrigues, apenas um sobrinho do casal ajudava na empresa. A experiência de mais de 20 anos do dono trabalhando à frente de oficinas mecânicas fez o negócio prosperar rapidamente. Em apenas seis meses, já contava com a ajuda de quatro funcionários e hoje, 16 anos depois, tem um time de 21 profissionais e sede própria. “Tinha o sonho de crescer, mas nunca pensei que iria prosperar tão rápido. Acho que foi a minha dedicação e presença em cada etapa dos trabalhos que fez com que eu ganhasse a confiança dos clientes”, conta o proprietário.

Há tempos Charley almeja virar uma oficina autorizada e vem desenvolvendo seu plano ano a ano. “Uma hora vira realidade”, diz. Para ele, a maior dificuldade de tocar a empresa é a sazonalidade dos serviços, uma vez que o mercado ainda não está aquecido e as empresas têm evitado despesas extras, o que acaba refletindo na manutenção dos veículos. Já para a sucessão, Charley espera que o filho, ainda pequeno, assuma os negócios, já que a filha mais velha já fez a opção pela psicologia.

 

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