Consulte o acervo da Revista Pellegrino utilizando a busca.

Tudo vai mudar no varejo?

Tudo vai mudar no varejo?

07/02/2018

O varejo de autopeças já acompanhou inúmeras mudanças nas últimas décadas. O que se espera para o futuro, porém, não são apenas evoluções tecnológicas, mas novos conceitos de mobilidade

 

Por Regina Ramoska

O Gol “bolinha”, o Weekend Adventure e o italiano Fiat Punto eram as sensações na década de 1990, quando se comemorou a reabertura do mercado às importações e novas montadoras se instalavam por aqui. O carburador deu lugar à injeção eletrônica e, daí para frente, foram inúmeras as evoluções, com dispositivos altamente tecnológicos em vários sistemas: ABS, câmbio eletrônico, embreagem elétrica, motores menores e com turbo, sem falar na conectividade.


Para as próximas décadas, a expectativa se dá em torno dos novos conceitos de mobilidade, carros autônomos e movidos a energia elétrica, que podem provocar mudanças também na reposição. O maior impacto deverá ser a mudança na relação entre o motorista e o automóvel. Segundo dados da Global Automotive Consumer Study, pesquisa realizada pela consultoria Deloitte, os brasileiros estão seguindo a tendência mundial e valorizando novos serviços de mobilidade: 55% dos usuários do Uber, 99 e outros serviços de transporte individual não sentem necessidade de ter seu próprio carro, e entre os jovens, o índice sobe para 62%, ou seja, três de cada cinco jovens consumidores não pretendem comprar um veículo.


Mesmo aqueles que não abrem mão do próprio possante já têm mudado de comportamento, garante o presidente do Sindirepa/SP e Nacional, Antonio Fiola. “Ainda que a frota em circulação esteja crescendo, o reparador precisa olhar as tendências para enxergar o seu modelo de negócio daqui a 20 anos”, alerta.

Carro compartilhado


Outra tendência que merece atenção é o carro compartilhado: a quem caberá a manutenção? Montadoras como a General Motors e Ford já assumiram a transformação de simples empresas automotivas para fornecedoras de soluções de mobilidade. A GM lançou, em 2016, o Maven, projeto piloto de compartilhamento de carros (car-sharing) que disponibiliza uma frota de veículos para aluguel por hora por seus funcionários. O processo é realizado por meio de um aplicativo no celular, que também destrava a porta do carro –a chave fica no interior do veículo. A Ford seguiu os mesmos passos e lançou, também no ano passado e em nível mundial, o Smart Mobility, que no Brasil foi implantado no complexo industrial de São Bernardo do Campo (SP). “A mudança na mobilidade pode impactar a reposição –atualmente, é o proprietário que faz a manutenção do veículo, mas se ele se tornar usuário, não terá mais esse compromisso, que caberá às empresas que prestam serviços de mobilidade. Como será a reparação? Terceirizada? Centralizada? Ainda é uma incógnita”, analisa o professor Dr. Marcelo Alves, do Centro de Engenharia Automotiva (CEA) da Poli-USP.

Especialização


O aumento na tecnologia embarcada nos veículos, somado à tendência de popularização do carro elétrico, vai demandar um novo perfil de reparadores, com foco em sistemas de informação e eletrônica. “Podemos comparar a manutenção de carros elétricos com a de celulares ou televisores, que se dá por meio da substituição de módulos”, explica Alves, ressaltando a importância da especialização profissional.


Outra tendência do século XXI, porém, deve contribuir para esse aprendizado: o compartilhamento de informações. A mudança do carburador para injeção eletrônica exigiu muito estudo dos profissionais, que geralmente dependiam dos fornecedores para se especializar. “Hoje, redes sociais como o YouTube facilitam a interação entre reparadores do mundo todo, que disseminam o conhecimento de como consertar um componente complexo, desmontar um veículo etc.”, garante o professor.


Alves acredita que essas mudanças demorem entre 10 e 15 anos para se tornar realidade nos países desenvolvidos, e que o Brasil ainda vai conviver por muito tempo com modelos à combustão. “Estamos em um país com dimensões continentais. Um caminhão movido a eletricidade não conseguiria levar uma carga do Sul ao Norte, por exemplo.”


Mas há outros pontos a se considerar –atualmente, o proprietário realiza a manutenção preventiva ou a reparação em oficinas de sua confiança. A tendência para os próximos anos, porém, é que o próprio veículo se comunique com a concessionária, que, por sua vez, será uma espécie de “detentora” dos dados do automóvel, armazenados na nuvem. A reflexão fica no ar: como o reparador terá acesso a esses dados? E que competências terá de desenvolver para efetuar a leitura correta das informações?


Economizar recursos, especialmente aqueles que impactam diretamente o meio ambiente, como os combustíveis fósseis, também estão na ordem do dia da indústria automotiva. Para isso, busca-se reduzir o peso dos veículos, gerando economia de combustível e menos emissão de poluentes. Carros cada vez mais leves, nos quais se privilegia o alumínio, aço de alta resistência e plástico reforçado com fibra de carbono deverão estar cada vez mais presentes, o que certamente vai alterar os processos na funilaria.

Mudanças em vendas


As mudanças para as próximas décadas não se restringem ao contexto tecnológico. A forma como se gerencia e administra um negócio automotivo também terá de acompanhar esse novo cenário. Nos últimos cinco anos, cresceu o uso de plataformas de comércio eletrônico por empresas do setor automotivo, tanto para a revenda de peças e acessórios, quanto para compra de itens mais difíceis de encontrar e de baixo giro. Essa tendência tem alimentado o surgimento de empresas em todas as regiões do país.


Segundo a consultora do Sebrae-PE Sybelly Figueira, um exemplo é o site Buscar Peças, startup de Pernambuco com foco no comércio eletrônico de peças automotivas que está dinamizando a relação fornecedor/cliente no segmento de autopeças, e o CDC Web, um dos mais utilizados hoje pelo varejista de autopeças para realizar cotações online. “O e-commerce é mais um canal de negócios, tanto para o varejista quanto para o atacadista que passa a dispor de um recurso web para ampliar ainda mais sua base de clientes, dando mais capilaridade para o seu negócio. Na internet é possível vender para novos clientes, movimentar estoque com baixo giro e expor produtos com grande visibilidade”, garante a especialista.



Roberto, do Auto Center Blumenau


Equipamentos de ponta

Há 48 anos na área de autopeças, Roberto Schmitt, proprietário do Auto Center Blumenau, na cidade de mesmo nome em Santa Catarina, acompanhou de perto inúmeras transformações no setor, que sempre exigiram atualização não só de competências técnicas, mas de equipamentos para atender às necessidades específicas de cada automóvel. “Se não houver esta sintonia, a empresa acaba ficando para trás. Também é de extrema importância a disponibilidade de componentes para veículos novos, que deveriam chegar à reposição simultaneamente ao lançamento dos modelos”, pontua, enfatizando que isso evitaria que os clientes ficassem com os veículos parados na oficina.


Emerson, da Procar Equipadora

Aprendizado virtual

Há 23 anos, quando inaugurou a Procar Equipadora, em Tangará da Serra (MT), Emerson Pequeno trabalhava com instalação de toca-fitas. Hoje, a empresa disponibiliza o que existe de mais moderno em acessórios, som e tapeçaria automotiva. Sempre antenado nas novidades, mas distante dos grandes centros, o varejista depende da internet para se manter atualizado e para solucionar problemas mais complexos. “Participo de vários grupos de discussão, mas observo que alguns colegas ainda têm medo de compartilhar informações, como se deter o conhecimento fosse o suficiente para fidelizar a clientela”, lamenta. “Os modelos novos vêm com acessórios de fábrica como centrais multimídia, e mesmo se tratando de novidades, recorro às mais diversas ferramentas e acesso ao conhecimento para atender o cliente.”


SAIBA MAIS
ANTONIO FIOLA (SINDIREPA)
(11) 5594-1010
sindirepa@sindirepa-sp.org.br
www.sindirepa-sp.org.br
MARCELO ALVES (USP)
(11) 3091-5332
mpauto@usp.br
www.automotiva-poliusp.org.br
SEBRAE
0800 5700800
www.pe.sebrae.com.br